Quase um milhão e meio de usuários diários. O que essa cifra tem a nos dizer?

 

O II LENAD, Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, investigou o padrão no uso de álcool, maconha e outras drogas ilícitas no Brasil. A pesquisa, organizada pelo INPAD (Instituto Nacional de Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas) da UNIFESP (Universidade federal de São Paulo) em parceria com o UNIAD (Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas), financiada pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), foi executada pela Ipsos Public Affairs e concluída em março de 2012. Os primeiros resultados publicados revelam números surpreendentes relacionados aos usuários de cannabis.

Segundo o levantamento, realizado por meio de entrevistas em 149 municípios brasileiros (dos 5.564 que existem) com 4.607 indivíduos maiores de 14 anos (dos quase 200 milhões de cidadãos), 7% da população adulta já fumou um baseadinho ao menos uma vez na vida, o que representa 8 milhões de pessoas. Os considerados usuários frequentes, ou seja, que fizeram a cabeça no último ano, correspondem a uma parcela de 3%, ou 3,7 milhões de usuários. E estes números se referem somente aos adultos, maiores de 18 anos. Entre adolescentes, 600 mil maiores de 14 anos assumiram já ter experimentado a ervinha do diabo, enquanto 3,7 milhões, o mesmo número de adultos, afirmam ter botado fogo na bomba no último ano. Alem destes, outros 1,3 milhões assumiram queimar um mato todos os dias.

Se estes números já parecem altos, imaginem que a amostragem utilizada foi baixíssima, chamada de amostragem probabilística, e dá margem para números muito maiores. Não bastasse, o medo à repressão sempre assombra, levando as pessoas a mentir, mesmo se tratando de uma pesquisa confidencial. Ou seja, os maconheiros do Brasil, muito provavelmente, correspondem a uma fatia muito maior da população. E até a ONU acha isso, já que considera os dados subestimados, uma vez que o volume apreendido no país está entre os maiores, sendo que não somos grandes fornecedores.

Para um país que leva a discussão da política de drogas como tabu, estes números podem parecer, no mínimo, razoáveis. Porém são os países mais desenvolvidos que lideram o ranking de usuários, tendo o Canadá encabeçando a lista com 44% da população assumindo ter feito uma fumaça ao menos uma vez na vida e 14% de usuários frequentes, seguido da Nova Zelândia e do vizinho EUA.

Pode ser clichê liberalista dizer que a legalização da cannabis na Holanda, apesar de contar com um relevante aumento nos primeiros anos após a regulamentação – reflexo de pessoas que gostariam de experimentar, mas não o fizeram antes por causa da proibição – teve uma queda significativa no decorrer do tempo – dando a pista de que muitos dos usuários, principalmente adolescentes, só o fazem como gesto de rebeldia, como uma afronta à proibição. Atualmente, o país está em 10º lugar na lista com somente 5% de usuários regulares, atrás de países como Dinamarca, França, Reino Unido, Itália e Chile.

Comparado ao levantamento de 2006, os resultados revelam um pequeno aumento no consumo. Na pesquisa de então, a fatia de fumetas assumidos era de 2%. Contudo, essa diferença pode ter sido causada pela mudança no método utilizado, já que na primeira pesquisa o usuário era perguntado diretamente, enquanto na deste ano o formulário era confidencial, dando mais privacidade à resposta.

É importante ressaltar que do total destes números, um terço dos usuários são considerados, aos olhos dos realizadores do estudo, dependentes. Essa dependência não leva em consideração a quantidade ou frequência no uso da substância, mas sim aspectos comportamentais, como ansiedade e preocupação por não ter um fininho, sensação de perda de controle sobre o uso e preocupação em relação a isso, ter tentado parar sem sucesso e achar difícil ficar sem dar um peguinha para se sentir “normal”. Embora 27% dos entrevistados declararem terem apresentado sintomas de abstinência ao tentar parar de fumar, estudos mostram que não é claro que a maconha possa causar dependência química.

Mas afinal, o que esses números querem dizer?

Defensores de políticas proibicionistas podem tomar esses números como argumento de que o uso da cannabis é uma epidemia, um problema a ser combatido, e a única forma de fazê-lo é eliminando esta e todas as outras drogas da sociedade por meio de leis opressoras. Outros olhos podem ver que estes números são espelho de uma realidade não só brasileira, mas uma tendência mundial e que isso não é um problema a se enfrentar, senão uma situação a se regulamentar.

É só colocar o tico e o teco para funcionar e chegar a uma conclusão clara e óbvia: quem quer fumar, vai fumar. Na hora que quiser, o que quiser e da maneira que for. Não há decreto ou governo que impeça um cidadão de exercer seu direito de ir e vir, sua autonomia. Proibir 1,3 milhões de fumar seu cigarrinho de artista no final de suas longas e maçantes jornadas de trabalho é ferir o livre arbítrio de 1,3 milhões de cidadãos. Eu não sou perita em lei, mas pelo pouco que sei, isso sim é inconstitucional.

É mais do que isso; é, quiça, dar excesso de livre arbítrio aos adolescentes, que aparecem em número significativo na pesquisa. Alem dos 4% de jovens usuários, 60% dos que se revelaram amantes da erva em algum momento da vida disseram ter provado os efeitos da fumaça mágica antes dos 18 anos, a maior parte entre 16 e 17 anos. Levando em conta que o “aviãozinho” que passa droga nas ruas também é um adolescente, como fica? Sem regulamentação oficial, quem vai pedir o RG de quem?

Como já disse Zé Celso, já que somente 3% da população já queimou um mato, “logo os 97% da população deveriam calar a boca, pois não sabem do que se trata, têm um preconceito sobre uma substância que nunca experimentaram”. Observando estes números de maneira racional, laica, livre dos tabus impregnados e de hipocrisia parental, como essas estatísticas devem ser vistas? Ainda que possam ser manipulados, os números não mentem.

Tali Sztokbant

2 thoughts on “Quase um milhão e meio de usuários diários. O que essa cifra tem a nos dizer?

  1. Quer dizer que os proibicionistas perceberam que tão indo no caminho da derrota e tentam inventar novos argumentos…

    Em relação aos números em si, não dizem nada de importante…

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