Dez mil celebram o direito dos maconheiros no Rio de Janeiro.

No ano de 2002, enquanto os norteamericanos prestavam homenagem e pesares pelas vítimas dos atentados contra o World Trade Center, ocorridos um ano atrás, naquele onze de setembro o Rio de Janeiro testemunhava cenas de terror ao vivo, enquanto detentos ligados ao comando vermelho – liderados pelo inimigo publico Fernandinho Beira Mar – fizeram uma rebelião no presidio de Bangu II, aonde executaram lideranças das suas duas facções rivais. Num telefonema grampeado Beira Mar teria dado a noticia a seus comparsas do lado de fora dizendo que “as duas torres caíram”. O episódio inspirou a cena de abertura do filme Tropa de Elite 2 e marcou um dos maiores picos de violência nos morros cariocas, até então praticamente todos dominados pelo “poder paralelo”.

Nesse mesmo ano de 2002, alguns meses antes, em Maio, o Rio de Janeiro dividiu com a Cidade do México (outro lugar muy violento) o título de serem as primeiras cidades latino-americanas a realizarem a Million Marijuana March, evento pedindo a legalização da maconha, justamente como solução para o problema da violência do narcotráfico. Hoje em dia existem várias experiências no mundo que comprovam a teoria de que a descriminalização e regulamentação do comércio e acesso às drogas têm grande impacto na redução das taxas de violência. Neste ano o Rio de Janeiro realizou sua décima Marcha da Maconha, o movimento cresceu e hoje são mais de quarenta cidades brasileiras se manifestando. Final de semana passado Belo Horizonte, Cuiabá, Teresina e Rio de Janeiro marcharam, e na capital fluminense foram dez mil manifestantes.

O número não superou o do ano anterior, mas foi igualmente impressionante. Em 2012 houve uma tentativa de inversão do trajeto, que não foi muito bem sucedida, pois a marcha seguiu pela pista da Av. Vieira Souto mais próxima aos prédios, ao invés da pista da praia, como costumava ser. A indignação de alguns moradores influentes pode ter sido uma das causas da até hoje não explicada atuação de policiais da CHOQUE que reprimiram violentamente a Marcha daquele ano. Para evitar novos tumultos, voltou-se ao trajeto original, do Posto 9 ao Arpoador, pelo lado da praia. O carro de som chegou pelas 14h, quando faixas foram estendidas no famoso “calçadão” de pedras portuguesas de Ipanema, aonde manifestantes se amontoavam fazendo o possível para respeitar a ciclovia. Faixas e cartazes pedindo o julgamento do RE da descriminalização e o repúdio ao Projeto de Lei do deputado Osmar Terra se somavam aos tradicionais “não compre plante” e “cultivador não é criminoso”.

Após uma série de discursos e improvisações de rappers a marcha saiu pontualmente às 16h20, com as marchinhas do Bloco Planta na Mente reforçadas por alguns membros desgarrados da mítica Orquestra Vegetal. Não demorou muito para a passeata, que no inicio deixava uma faixa para os carros, crescer e fechar a avenida, e o melhor de tudo, sem nenhum problema ou reclamação por parte da polícia que este ano seguia a marcha de longe, pianinhos. Duas horas de celebração dos direitos dos maconheiros depois, a marcha chegou ao Arpoador, aonde foi se dispersando entre a praia, o calçadão, a pedra e a praça aonde curiosamente uma banda gospel encerrava uma apresentação.

Que esta marcha sirva de inspiração para as dezenas que estão por vir no país até Julho, sem estresse com a polícia e batendo recordes de presença. Pressionando o congresso para não aprovar o retrógado PL 7663! Pressionando o STF para julgar o RE 635659 imediatamente! E pedindo em alto e bom som e a todos os pulmões, liberdade já para o usuário religioso, para Ras Geraldinho e todos os cultivadores presos!

Viva a Marcha da Maconha! Nossa vitória não será por acidente!

Retroceder jamais! Repúdio ao PL 7663/10


Graças a um tal deputado federal Osmar Terra e seu imbecil Projeto de Lei 7663/10, o Brasil está prestes a retroceder como nunca em sua política antidrogas. Paternalista, desumana, cruel e retrógrada, a proposta infeliz pretende internar usuários à força, além de aumentar a pena para pequenos traficantes. Sem falar que as tais “comunidades terapêuticas”, em sua maioria, são regidas por entidades religiosas, sobretudo evangélicas, o que indica a roubalheira de dinheiro que vem por aí.

Em repúdio à tal iniciativa, a revista semSemente – da qual muito me orgulho em fazer parte – acaba de lançar esse vídeo com depoimentos exclusivos gravados durante o “Congresso Internacional sobre Drogas 2013: Lei, Saúde e Sociedade”, que rolou na semana passada em Brasília (DF). Entre os entrevistados estão o ex-presidente da Colômbia, César Gaviria, o vereador Renato Cinco, o ex-secretário de justiça Pedro Abramovay, o professor Henrique Carneiro da USP, o jornalista Tarso Araújo, o professor Dartiu Xavier da UNIFESP e o norte-americano Ethan Nadelmann da Drug Policy Alliance.

Dá o play ae, compartilhe, faça barulho e vamos reagir a essa proposta descabida & fracassada!

Marcha da Maconha de Brasília abre Maio Verde com 5 mil manifestantes


O fim de semana passado foi agitado em Brasília, que abriu o Maio Verde com congresso e Marcha da Maconha. A cidade, que reuniu cerca de 700 inscritos no “Congresso Internacional sobre Drogas: Lei, Saúde e Sociedade”, também abrigou a primeira Marcha da Maconha de 2013, arrastando cerca de cinco mil manifestantes no sábado dia 4 de Maio. Nos anos anteriores a Marcha de Brasília foi realizada em dias de semana, para aproveitar o fluxo intenso de carros oficiais e funcionários públicos no Plano Piloto, realizando um trajeto que contornava o congresso, com uma paradinha na praça dos três poderes para a realização de uma folha humana. Desta vez, como a Marcha foi realizada num dia de semana, o trajeto foi alterado, levando à massa ao sentido contrário, contornando a antena de TV e atravessando duas vezes a super lotada rodoviária, aonde a reação de populares se dividia entre aplausos e rostos chocados.

A Marcha foi escoltada por dez ônibus da PM, realizando um paredão que praticamente escondia a Marcha para quem passava de carro, mesmo assim os manifestantes não se intimidaram e seguiram até o final sem nenhum conflito, salvo relatos de que alguns policiais discretanente jogavam gás lacrimogêneo pela janela dos ônibus. Um carrinho de madeira movido a propulsão humana carregava potentes caixas de som que entoaram um repertório que foi de Bob Marley à Racionais MCs, com pausas para algumas palavras de ordem e jograis, geralmente pedindo a liberdade para Sativa Lover e outros cultivadores aprisionados, a legalização da canábis para todos seus fins e reforçando o repúdio ao retrógado Projeto de Lei do Deputado Osmar Terra.

No final, a Marcha voltou ao Museu da República aonde mais tarde rolou um show da banda Amanita, como parte da programação do “Congresso Internacional sobre Drogas: Lei, Saúde e Sociedade”. Enquanto o show não começava o som ficou a cargo do carro de som da Marcha, colocado estratégicamente no topo da rampa que dá acesso ao museu. Não demorou muito para que dois PMs de moto subirem à rampa, acelerando sobre os manifestantes na atitude provocatória de sempre. Felizmente ninguém comprou a briga e os PMs deixaram a rampa, mas logo deu-se inicio a uma operação de revista aos manifestantes que deixavam o local. Não há relato de prisões.

A Marcha dá inicio ao Maio Verde, mês em que neste ano 42 cidades brasileiras marcham pela legalização da canábis. Confira o calendário completo no site da Marcha da Maconha.

Carta de Brasília em Defesa da Razão e da Vida

Profissionais de diversas áreas, acadêmicos, estudantes, ativistas… O fim de semana reuniu cerca de 700 de variados espectros em um evento precursor, com o único objetivo de debater as atuais políticas de drogas, suas consequências e possíveis alternativas para acabar de uma vez com essa guerra fracassada. Ainda que muitas opiniões sejam divergentes, há um ponto comum: a proibição das drogas causa mais males que a droga em si. Por isso, ao final do Congresso Internacional sobre Drogas: Lei, Saúde e Sociedade, alguns dos palestrantes junto a um grupo de participantes redigiram uma carta que será entregue à presidenta Dilma Roussef. O documento é um apelo sincero que pede o fim do proibicionismo e o veto do PL 7663/10, do deputado Osmar Terra. Vale comentar que o deputado, assim como outros proibicionistas, foram convidados a participar do Congresso, tendo rejeitado o convite.

Abaixo, a carta na íntegra, já assinada por 188 pessoas. O documento será disponibilizado online para que os internautas possam assinar embaixo!

Carta de Brasília em Defesa da Razão e da Vida

O Congresso Internacional sobre Drogas: Lei, Saúde e Sociedade foi realizado entre 3 e 5 de maio de 2013 no Museu da República em Brasília para fomentar o diálogo sobre o tema das drogas. Nós, participantes do Congresso e signatários desta carta, constatamos que a política proibicionista causa danos sociais gravíssimos que não podem persistir. Não há evidência médica, científica, jurídica, econômica ou policial para a proibição. Entretanto identificamos alarmados um risco de retrocesso iminente, em virtude do projeto de lei 7663/10, de autoria do Deputado Osmar Terra (PMDB/RS), atualmente em tramitação na Câmara dos Deputados, relatado pelo deputado Federal Givaldo Carimbão (PSB/AL). Entre vários equívocos, o projeto prioriza internação forçada de dependentes químicos. Vemos com indignação que autoridades do Governo Federal se pronunciam a favor dessa prática. Conforme apontado pelo relator especial sobre tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes junto ao conselho de direitos humanos da Organização das Nações Unidas, a internação forçada de dependentes químicos constitui tortura. Tendo em vista a trajetória política, compromisso com os direitos humanos e experiência pessoal em relação à tortura da Presidenta Dilma Roussef, é inadmissível que o Governo Federal venha a apoiar a internação forçada. Entendemos que a aplicação dessa medida no Brasil atual representa a volta da política de higienização e segregação de classe e etnia.

Mesmo em suas versões mais brandas, o proibicionismo infringe garantias fundamentais previstas na Constituição da República, corrompe todas as esferas da sociedade, impede a pesquisa, interdita o debate e intoxica o pensamento coletivo. A tentativa de voltar a criminalizar usuários e aumentar penas relacionadas ao tráfico de drogas é um desastre na contramão do que ocorre em diversos países da América e Europa, contribuindo para aumentar ainda mais o super-­‐encarceramento e a criminalização da pobreza. A exemplo das Supremas Cortes da Argentina e da Colômbia, é preciso que o Supremo Tribunal Federal declare com urgência a inconstitucionalidade das regras criminalizadoras da posse de drogas ilícitas para uso pessoal. Em última instância, legalizar, regulamentar e taxar todas as drogas, priorizando a redução de riscos e danos, anistiando infratores de crimes não-­violentos e investindo em emprego, educação, saúde, moradia, cultura e esporte são as únicas medidas capazes de acabar efetivamente com o tráfico, com a violência e com as mortes de nosso jovens. É um imperativo ético e científico de nosso tempo, em defesa da razão e da vida humana.

Itália legaliza a maconha para fins medicinais

Enquanto os olhos do mundo estão voltados para a escolha do novo Papa, um importante acontecimento passou despercebido na Itália. No dia 23 de fevereiro deste ano, um decreto do Ministério da Saúde, publicado na Gazeta Oficial, legalizou a canábis para fins medicinais no país.

O projeto de lei foi assinado em janeiro pelo ministro da Saúde, Renato Balduzzi, passando a vigorar no mês passado. De acordo com a publicação oficial, a decisão considera que os benefícios medicinais da planta se sobrepõem ao potencial danoso e aos riscos de vício.

A canábis passa, portanto, a figurar em uma nova tabela de perigos (seção B), sendo permitida legalmente no país, para fins medicinais, em todas as suas formas. A decisão foi validada pelo Instituto Superior de Saúde, o Conselho Superior de Saúde e o Departamento de Políticas Anti-Drogas da Itália.

A Itália é o último país europeu, depois da República Tcheca, a legalizar a maconha medicinal. Confira aqui o decreto publicado pelo Ministério da Saúde italiano.

STF julga a descriminalização da maconha nesse semestre

O Supremo Tribunal Federal (STF) vai julgar, nesse semestre, a descriminalização da maconha no Brasil. A informação é de Mônica Bergamo, colunista da Rádio Band News FM. Na última quarta-feira, 27 de fevereiro, a jornalista informou que o Supremo já ouviu as partes favoráveis e contrárias à descriminalização, e que o processo está pronto para ser debatido. “Eu conversei com alguns ministros que disseram que isso será colocado em pauta ainda nesse semestre. E arriscaria dizer que a tendência do Supremo Tribunal Federal é pela descriminalização das drogas. Ou seja: elas continuariam proibidas, porém o usuário apanhado não seria mais penalizado de forma alguma”.

O processo a que se refere a jornalista é o Recurso Extrordinário (RE) 635659, cujo relator é o ministro Gilmar Mendes, que foi entendido, em 2011, como de repercussão geral – ou seja, que representa interesse público. Os autos questionam a decisão que condenou, pelo artigo 28, o detento Francisco Benedito da Silva, com quem foram encontradas 3 gramas de maconha na Cadeia de Diadema. O detento recebeu pena de dois meses de prestação de serviços à comunidade, decisão questionada pelo recurso. Clique aqui para saber mais sobre a RE 635659.

Em seu informe, Mônica Bergamo lembrou que, desde 2006, as penas foram abrandadas pela Lei 11343, mas que o usuário de droga ainda é tipificado como criminoso em terras brasileiras. E comentou a opinião das entidades e organizações favoráveis à descriminalização: “As entidades defendem que a criminalização afronta a Constituição, pois ela protege a vida privada e a intimidade das pessoas. Eles citam, também, a dignidade humana e a pluralidade. Dignidade no sentido de que cada um tem capacidade de autodeterminação. E pluralidade no sentido de que devem ser tolerados, na sociedade, diferentes modos de vida, de estilo e de ideologia”.

A  jornalista informou que foram citados, na discussão, exemplos de países que já descriminalizaram o uso de drogas sem que o consumo aumentasse, como Portugal, Espanha, Colômbia, Itália e Alemanha.

“Um avanço, ainda que tímido”

A frase acima é do âncora da Band News, Ricardo Boechat, notório defensor da legalização da maconha. Ao comentar a notícia, o jornalista ressaltou que a proposta representa um importante passo, mas que ainda está longe de ser a solução. “O que tem o Estado, o que têm as leis, o que tem a sociedade a ver com aquelas práticas que eu adoto dentro do meu ambiente, dentro da reserva dos meus espaços, com meus amigos ou sozinho, desde que isso que faço, privadamente, não produza consequências públicas que interfiram no direito, na vida e na privacidade dos demais? Se eu quero, em casa, apertar um baseado, fumar um tronco, e sair dando gargalhada pela calçada, desde quando gargalhada afeta o destino da sociedade?”.

Boechat arrematou a questão ao colocar em cheque a política proibicionista de combate às drogas, ainda adotada pela maioria dos países. “O modelo de lidar com as drogas no mundo sempre se baseou na repressão e na criminalização. E foi um fracasso! É um fracasso! Esta criminalização, que chama de tráfico aquilo que poderia ser comércio, faz com que se alimente uma grande máquina de corrupção e de injustiças, nos campos policial, judicial e prisional. O mundo, em algum momento, vai dizer: realmente, quanto tempo perdemos com essa idiotice”.

Ouça aqui o comentário de Ricardo Boechat na íntegra.

O papel da Marcha da Maconha

Para André Barros, ativista e advogado da Marcha da Maconha, as manifestações pelo Brasil foram determinantes para colocar a questão no STF. Ele relembra a histórica votação da ADPF 187 pelo STF, em 2011, que garantiu a legalidade da Marcha. “Nós ganhamos, tínhamos razão, estávamos amparados pelo direito de reunião previsto no inciso XVI da Constituição Federal”.

O advogado enfatiza que, no mesmo, ano, o STF entendeu que havia repercussão geral no RE 635659. “Esperávamos que o recurso fosse julgado em 2012, mas não foi. Agora, 2013 tem tudo para ser o ano em que o uso da maconha e de outra substâncias proibidas no Brasil seja julgado e descriminalizado. Temos que incentivar a Marcha da Maconha a pautar e cobrar esse processo no Supremo”.

Nesse link, você pode acompanhar o andamento da RE 635659.

República Tcheca legaliza canábis para fins medicinais

Em uma votação tranquila, 67 dos 74 senadores votaram a favor da lei, que prevê um rígido sistema computadorizado de prescrição, a fim de evitar abusos. Agora, poderão se beneficiar do medicamento pacientes de doenças como câncer, Mal de Parkinson, esclerose múltipla, psoríase e eczema atópico, entre outras.

A maconha lidera o ranking das drogas mais consumidas na República Tcheca. A posse de pequenas quantidades para consumo próprio, e o plantio de determinado número de plantas já são legais desde 2010. A partir de então, o número de lojas de materiais para cultivo explodiu, sem, no entanto, um aumento no abuso da substância nem uma “explosão de criminalidade” associada à droga.

Agora, com a retirada da canábis da lista de substâncias proibidas, possibilitando sua prescrição, a República Tcheca passará a ter uma das legislações mais progressistas no mundo no tocante à erva. Para suprir a demanda inicial com a entrada em vigor da lei, ainda em 2013, o governo tcheco importará a canábis por um ano, e neste período o Instituto Estatal Europeu de Controle de Drogas deverá emitir licenças para produtores locais, bem como treiná-los para atuarem dentro dos parâmetros da nova lei. Cada licença terá validade por 5 anos.

Neste sentido, é bem possível que a experiência tcheca se espelhe no bem sucedido programa israelense de canábis medicinal, criado há 12 anos, e que atende atualmente 7.500 usuários em todo o país, muitos deles soldados do exército mutilados ou com traumas por conta dos conflitos frequentes na região. Até mesmo um asilo, onde 90% dos pacientes idosos se utilizam da canábis medicinal para os mais diversos males, é possível encontrar em Israel. E toda a produção governamental é oriunda de apenas 8 fazendas.

Independente disso, teremos em breve mais uma experiência política de uma nova abordagem para a canábis para analisar. Mas, o mais importante, milhares de pacientes crônicos deste país terão acesso, legalmente e com qualidade, a este medicamento cada vez mais estudado e de comprovada eficiência, e poderão ter qualidade de vida graças a esta planta que começa, aos poucos, a ser redimida após um século de perseguição.

E a nossa?

No Brasil, se realizou em 2010 o simpósio “Por Uma Agência Brasileira de Cannabis Medicinal”, na UNIFESP, sob a batuta do incansável paladino da canábis medicinal no país, o professor Elisaldo Carlini. A semSemente estava lá, e lembra muito bem o que foi discutido e acordado. No evento, que contou com as experiências dos Ministros da Saúde Holandês, Canadense e outros, além de associações como a OAB, a AMB, e a Anvisa, foi retirado um documento a ser enviado para a ONU onde o Brasil, além de se desculpar pelos erros históricos de cientistas brasileiros que referendaram a proibição da canábis no mundo todo, demonstrava interesse em, até 2015, criar sua Agência de Canábis Medicinal.

A troca de governo, que já começou com a bola fora da Presidente Dilma com o jurista Pedro Abramovay (leia na semSemente #1 a entrevista exclusiva), mudou o cenário, e nada mais se falou no assunto. Três anos se passaram, e entre esquivas repetidas, o alívio das dores de milhares de brasileiros apodrece dentro de alguma gaveta em alguma repartição pública. Divididos entre a Copa e a Olimpiadas (e os lucros que dela virão), parece que ninguém no governo sequer cogita colocar a questão em pauta. Afinal, que relevância tem o sofrimento de muitos, se comparado a estádios grandiosos no país do futebol?

Estamos de olho, e não deixaremos a pauta ser esquecida. Canábis medicinal no Brasil já!

Entrevista com advogado de Ras Geraldinho após julgamento em Americana.


Uma caravana de cultivadores e ativistas pela legalização da maconha se somaram aos Frequentadores da I Primeira Niubingui Etíope Coptic de Sião do Brasil, jornalistas e outros ativistas que se manifestaram hoje em frente ao fórum de Americana, interior de São Paulo. Lá foi conduzida em segredo de justiça uma sessão do Julgamento de Ras Geraldinho, fundador da primeira igreja rastafari do Brasil, encarcerado injustamente desde Agosto do ano passado sob acusação de tráfico.

Nossa enviada especial Mary Juana esteve lá e entrevistou o Dr. Alexandre khuri Miguel, advogado do Ras que também já defendeu causas ligadas ao Santo Daime. No video ele defende a liberdade do uso religioso e explica que Ras foi vitima de uma justiça preconceituosa que insiste em enquadrar cultivadores como traficantes.

Entenda mais sobre o caso do Ras Geraldinho lendo a matéria públicada na semSemente #2.

Começa a 25ª High Times Cannabis Cup

Polícia dá uma geral no estande da RooR na Cannabis Cup de Amsterdam.

Começou hoje o maior encontro mundial de connoisseurs canábicos, a 25ª Cannabis Cup de Amsterdam, organizada pela revista norte-americana High Times. Embora já se tenham passado alguns dias em que a cidade está mais lotada do que nunca de turistas fumetas de todo canto do mundo, só hoje começou oficialmente a Cannabis Cup, com a entrega dos passes de juiz no centro de convenções Roest. Logo na entrada o juiz recebe seu kit de brindes, que inclui um guia fartamente ilustrado com o roteiro de 25 coffeeshops que oferecem as distintas variedades de diferentes bancos de semente que concorrem na Copa. O Roest abriga a feira, onde não rola venda de maconha – apenas sementes e parafernália para consumo e cultivo. Para fumar, a parada é preparar o bolso e lançar-se numa peregrinação fumeta pelos 25 coffeeshops onde apresentando seu passe você pode comprar vários combos das variedades competidoras por um preço diferenciado. Esquema menu degustação.

Quando os portões abriram, às 13h, alguns policiais, que de início estavam na porta, entraram na feira e deram uma geral no estande do fabricante holandês de bongs RooR, para verificar se eles tinham maconha destinada à venda escondida em algum lugar. Certos de que não havia nada de errado, os vendedores da RooR continuaram servindo bongadas para o público, que no momento estava mais interessado em filmar os policiais, que foram embora depois de nada encontrar. Em 25 anos de copa canábica a primeira vez que houve problemas com a polícia foi em 2011, quando policiais revistaram vários estandes e pessoas que saíam da feira. A atitude de hoje mostra que, embora a regulamentação ao acesso de turistas aos coffeeshops holandeses tenha sido vetada em Amsterdam, a polícia está mesmo disposta a endurecer com a cena canábica, fazendo menos vista grossa.

Às 16:20h começou oficialmente o evento, com um discurso do editor-chefe da revista High Times, Steve Hager, e a apresentação da banda “Temple Dragons” ou algum outro nome hippie parecido. A breve cerimônia, que contou com a apresentação dos troféus e algumas amostras concorrentes, aconteceu no mesmo auditório anexo à feira onde durante a semana rolam várias palestras, seminários e oficinas. Durante a noite, a bagunça rola no Melkweg, próximo destino da equipe de reportagem semSemente, que vai mantendo você por dentro da Cannabis Cup aqui pelo Blog, enquanto prepara uma mega-cobertura especial para nossa quarta edição.

Comissão do Reino Unido recomenda a descriminalização das drogas

 

 

A estratégia de combate ao consumo de drogas adotada desde o século passado não é eficiente. Em alguns casos, pode até contribuir para estimular a disseminação do uso dessas substâncias psicoativas. A Guerra às Drogas é um completo fracasso. Eu sei disso, você sabe disso e agora a Comissão de Política para Drogas do Reino Unido (UKDPC, na sigla em inglês), um orgão de aconselhamento independente que vem estudando o tema há seis anos, também sabe e quer divulgar isso.

Formada por cientistas, policiais, acadêmicos e especialistas, a UKDPC divulgou um estudo que conclui que os 3 bilhões de libras gastos anualmente no país são desperdício de dinheiro público, já que o crescimento do mercado e consumo da droga não é intimidado pelas tentativas frustradas de coibir seu uso.

No Reino Unido, o consumo de pequenas quantidades de drogas para uso pessoal é uma ofensa criminal. O relatório propõe que o tema seja tratado como um delito civil. Os autores também alertam que a crise econômica pode restringir a oferta de tratamento para viciados e compara a terra da rainha, que tem o Ministério do Interior como responsável pelas ofensas relacionadas às drogas, com outros países europeus que levam o assunto para a saúde pública.

A proposta é uma mudança gradual, começando pelos usuários de maconha e então estendida para outras drogas. Falando da danada, os pesquisadores afirmam que o cultivo caseiro não deveria sequer ser alvo de punição, baseados no argumento de que a prática contribui para diminuir o tráfico em grandes quantidades, comandado pelo crime organizado. O cultivo caseiro de canábis, de fato, ajuda a combater o crime organizado. Aqui ou em qualquer lugar do mundo.

Apesar dos esforços do grupo, uma porta-voz do Ministério do Interior Britânico agradeceu a contribuição da pesquisa, mas diz que se mantém confiante no êxito de suas políticas, visíveis em estatísticas de queda no uso de drogas.

Mais informações: O Globo